Arte feita com IA: bonitinha, mais ordinária.

IA no design

O uso preguiçoso dela está matando a diferenciação.

É inegável que o mundo, especialmente a comunicação e o marketing, se dividem em antes da IA / depois da IA.

É impressionante o que essa tecnologia já consegue fazer. Ela remodela imagens, executa em segundos ajustes que antes exigiam horas de Photoshop, prototipa ambientes, cria cenários, explora conceitos visuais e torna acessíveis recursos que, até pouco tempo atrás, estavam restritos a profissionais e estruturas especializadas.

No começo dessa brincadeira as imagens vinham meio monstruosas, com olhos vesgos e mãos de sete dedos. Agora os erros são raros mas outro problema surgiu: a padronização do design. É por isso que você bate o olho e diz: “Foi feito por IA”. São degradês, excesso de simetrias, rostos perfeitos e repetidos, icones prá todo lado, fontes padrão e repetidas e outras coisas.

É o fast-food do design: rápido, acessível, visualmente apetitoso e quase sempre com o mesmo gosto mas que ao longo do tempo e em excesso, faz muito mal. É claro que essa padronização não começou com a IA. A arte visual já vem contaminada por fotos e ilustrações de banco de imagens, templates de Word Press, modelos prontos do Canva e tendências copiadas do Pinterest bem antes da IA dominar o mundo.O que ela fez foi acelerar a entrada na vala comum para o design de publicidade.

Isso criou a ilusão perigosa para muita gente, especialmente para pequenos negócios com recursos limitados, de que fazer design e marketing é simplesmente escrever um prompt rápido no GPT solicitando uma imagem para “X” finalidade com “Y” conteúdo.  

Sem qualquer direção de arte, conceito, repertório e playbook de marca, o resultado é invariavelmente uniformizado, num “padrão IA”. Isso porque a IA opera com modelos prontos generalistas aprendidos a partir do arcabouço geral de dados da internet.

Essa utilização indiscriminada da IA traz, na minha opinião, dois grandes problemas — que, no fundo, são manifestações de uma mesma questão.

1. Morte da diferenciação

Sua marca passa a fazer parte da paisagem. Tudo que passa no feed, onde a atenção não dura mais que um segundo, parece ser uma versão um pouquinho diferente da mesma coisa. O olho bate e o cérebro já sentencia: mais um post/carossel feito com IA, não só no visual mas até nos textos e conteúdos.

A essência de todo o trabalho de marketing (e marca) é tornar sua oferta saborosamente diferente das outras, tão diferente que desperte desejo no consumidor que o faça escolher a sua marca e até pagar mais por ela.

Quando todas as ofertas parecem iguais, sem diferenciais significativos, o critério de escolha passa ser o preço e a competição por preço tem como principal vítima a margem de lucro.

2. Branding na lata do lixo

Quando a IA é utilizada sem direção criativa e como principal ferramenta para criações da sua marca, ela vai “contaminar” sua identidade visual, deixando suas digitais de IA nela. Vai ficar, literalmente, “bonitinha, mas ordinária”.

“Mas meu negócio é pequeno. Nem sei o que é branding”. Não importa. Cada ponto de contato da sua empresa com o consumidor é uma peça do quebra-cabeças do branding. Toda empresa faz seu branding, sua construção (ou destruição!) de marca. Desde a publicidade veiculada no outdoor, o site, a fachada, a embalagem, até o uniforme da equipe e o atendimento dado pela sua secretária ou no Whatsapp, tudo comunica, tudo faz parte da construção do seu branding. E, em última análise, é isso que faz você diferente da sua concorrência. Ao menos deveria ser.

Eu acredito que há um movimento de pêndulo em toda tecnologia revolucionária, como a IA no design. O pêndulo vai todo para um lado no início. Todo mundo usa (e abusa!) do recurso, extrapolando até ao limite do ridículo. Depois o pêndulo volta e se estabelece o equilíbrio.

Eu penso que o pêndulo já está voltando. Afinal, acredito que muita gente tenha o mesmo sentimento que eu: não dá mais prá querer “comer churrasco feito em Air Fryer”.

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